terça-feira, 24 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: A ROSA DE AREIA

A ROSA DE AREIA


Abstração, Rosa Branca II
Georgia O'Keeffe (1887-1986)

 É uma rosa de areia
É uma flor do deserto,
Que nos transporta para longe,
Que traz o longe para perto.
 
As asas leves do vento
Lhe deram forma e feito,
Cresceu com o sol ardente
E o silêncio vazio.

Viu passar os três Reis Magos
Carregados de tesouros,
Bandos louros de camelos
E ágeis guerreiros mouros.

Rosa da areia trazida
Das dunas para a cidade,
Rosa que não murcha nunca
Porque é feita de saudade.
                
                  
                     Luísa Ducla Soares
                     Poema sugerido por: Anabela Silva - 6.º A

segunda-feira, 23 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: AMAR!

AMAR!


Os amantes nos lilases
Marc Chagall (1887-1985)
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... para me encontrar...
                                
                                
                                 Florbela Espanca
                                 Poema sugerido por: Ana Teresa Alves - 8.º A
 

domingo, 22 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: MARIA LISBOA

Varina de Lisboa
Ernesto Neves (1941-2009)
MARIA LISBOA

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile co’ o mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestade apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa.             

                      David Mourão-Ferreira
                      Poema sugerido por: Joana Lopes - 7.º B

sábado, 21 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: MAR LUSO

No dia em que se assinala o "DIA MUNDIAL DA POESIA", o nosso destaque vai para um jovem poeta monchiquense, cujo trabalho nos orgulhamos de divulgar.



Cristo no meio da tempestade
Rembrandt (1606-1669)
MAR LUSO

Rio caudaloso
De todos os rios.
Lastro saudoso,
Cioso
De sonhos e façanhas
Feitos de lágrimas, suores e calafrios
Arrancados às entranhas
Das montanhas.
Corre, trilhado,
Em ímpetos planos.
Ondas mortas contam os anos
Que te afastam do passado
Português.
Esperam que sejas, mais uma vez,
Calmaria de uma imensidão deslumbrada,
Torrente aflita
Que se agita
Em cachões de água salgada.

                                       Eduardo Duarte

sexta-feira, 20 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: POEMA VERDE

O lago de Annecy
Paul Cézanne (1839-1906)
POEMA VERDE

Verdes são os campos,
Verdes os palmares,
Verdes papagaios
Voam pelos ares.
Verdes são os lagos
Mais os oceanos,
Verdes são as algas
E os verdes anos.
Verdes são as sombras,
Verdes são as rãs,
Verdes primaveras
E verdes maçãs.
Verde é a floresta,
Verde é o bilhar
Mas ainda mais verde
É o teu olhar.

                             Luísa Ducla Soares
                       Poema sugerido por: Maria Gervásio - 6.º A

quinta-feira, 19 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: O BURRO QUE ESCREVEU AO REI

O BURRO QUE ESCREVEU AO REI
Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão
 sobre um burro ajaezado à andaluza
Júlio Pomar (1926-)

Estou muito arreliado
Já mandei uma carta ao Rei
Quero que se faça justiça
Quero que aplique a lei
Sinto-me muito ofendido
E com carradas de razão
Sou meigo, trabalhador
Dócil e bonacheirão
Tenho paciência sem fim
Ao homem presto serviços
E ninguém me considera!
Mas o que vem a ser isso?
Carrego cargas pesadas
Pelos caminhos além
E fui eu que transportei
O Jesus e Sua mãe
Se alguém errou… é um burro
É burro! Não acertou
Não percebeu? É um burro!
Porém, o caso mudou
“ O burro é um animal
Muito, muito inteligente”
Dizia a carta do Rei
E eu fiquei todo contente!

                                    Isabel Lamas
                                    Poema recomendado por: João Melo – 6.º A

 

quarta-feira, 18 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: CANTIGA

Jardim florido
Gustav Klimt (1862-1918)
CANTIGA

Ai! A manhã primorosa
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.  

Os jardins têm vida e morte,

noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,

morria.

E é nisso que se resume

o sofrimento:
cai a flor, - e deixa o perfume
no vento!
                            Cecília Meireles
                            Poema sugerido por: Joana Rosa - 5.º A

terça-feira, 17 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: AZUL AR


Azul III
Joan Miró (1893-1983)
AZUL AR

azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu
 
                        Alexandre O´Neill
                        Poema sugerido por João Duarte - 7.º A
                                        

segunda-feira, 16 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: SONETO DO AMOR E DA MORTE

Pensando na morte
Frida Kahlo (1907-1957)
 
SONETO DO AMOR E DA MORTE

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se ainda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
 
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu ainda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

                  
                   Vasco Graça Moura
                   Poema sugerido por: Sofia Carapinha - 7.º B

 

domingo, 15 de março de 2015

SEMANA DA LEITURA 2015


UM POEMA POR DIA: CONTEMPLANDO O LAGO MUDO

Melancolia
Edvard Munch (1863-1944)
CONTEMPLANDO O LAGO MUDO

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz.
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
                        
                        Fernando Pessoa
                    Poema sugerido por: Mina Estevão - 5.º B

sábado, 14 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: FRUSTRAÇÃO

FRUSTRAÇÃO

Na conversa com o jardineiro
Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)
Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

            Miguel Torga 
            Poema sugerido por: Patrícia Moreira - 5.º A

sexta-feira, 13 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: EPIGRAMA

A morte do avarento
Hieronymus Bosch (1450?-1516)

EPIGRAMA


Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito. 

«Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.»

                       Bocage
                   Poema sugerido por: Pedro Dinis - 7.º B

quinta-feira, 12 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: BARCA BELA


Impressão, nascer do sol
Claude Monet (1840-1926)
BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela.
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la ,
Ó pescador!
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!
                                    Almeida Garrett
                             Poema sugerido por: Carolina Jesus - 6.º B

quarta-feira, 11 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: O FUTURO PERFEITO

George Bernard O'Neill
(1828-1917)
O FUTURO PERFEITO

A neta explora-me os dentes,
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
Fura-me os olhos cansados,
Íntima aos meus próprios medos
Deixa-mos sossegados.
E tira, tira puxando
Coisa de mim, divertida.
Assim me vai transformando
Em tempo de sua vida.
 
               Vitorino Nemésio
               Poema sugerido por: Mariana Joaquim . 5.º A 

terça-feira, 10 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR

UMA HISTÓRIA DE DIVIDIR

Laranjas
Fernando Botero (1932-)
Um divisor dividia
muitíssimo devagar.
A divisão bem podia,
dizia ele, esperar.

O dividendo, mais lesto,
não podendo perder tempo, 
dia a dia ia perdendo
a paciência e o resto.

E, encarando o amigo, 
falava-lhe duramente:
«Não posso contar contigo,
és um inquociente!»

                     Manuel António Pina
                     Poema sugerido por: Ricardo Reis - 7.º A

HÁ LIVROS QUE NÃO QUEREM DORMIR

O livro que não queria dormir é o interessante título do livro que o José Carlos Duarte, do 4.º ano da Escola EB 1 n.º 2, apresentou aos microfones da Rádio Foia numa das duas emissões do mês de fevereiro.
Do autor Pedro Teixeira Neves, que já esteve de visita ao nosso agrupamento de escolas, esta obra conta-nos a história de um livro que não queria acordar "simplesmente porque durante anos e anos ninguém o quis ler". Desiludido com o desprezo dos leitores, o livro viu-se, certo dia, nas pequenas mãos de um menino. Fora, finalmente, escolhido! Mas como os livros, tal como as pessoas, têm reações estranhas, fez uma birra e tentou impedir que o menino o lesse, fazendo força, comprimindo as páginas. 

Simpático e comunicativo, o José Carlos presenteou-nos com uma expressiva leitura de parte da obra e resumiu, depois, o resto da história, esclarecendo que, no final, o livro se deixou vencer pela insistência do menino e desistiu da birra, receando que as suas folhas se  rasgassem. Vitorioso, o menino deu início à leitura. Começava assim: "Era uma vez um livro que não queria dormir. Esse livro era muito feliz porque os dias inteiros, de manhã à noite, passava de mão em mão, de boca em boca, fazendo ecoar as suas palavras, contando e partilhando a sua história e os seus ensinamentos".

Quem não deixa mesmo dormir os livros é a Maria Gervásio, que deu voz à nossa rubrica pela sétima vez e que está sempre pronta para participar nas atividades de leitura promovidas pela BE. 
A rapariga rebelde tem uma amiga foi o título escolhido para o programa deste ano letivo, explicando-nos a Maria que a sua escolha está relacionada com o facto de se identificar muito com a protagonista da obra.
No entanto, a nossa leitora reservou-nos uma agradável surpresa para esta edição e deu-nos a conhecer um texto da sua autoria "Amor de perdição à monchiquense", que partilhou com os ouvintes da Rádio Foia.

segunda-feira, 9 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: CÃO

CÃO

Natureza-morta com três cães
Paul Gauguin (1848-1903)
Cão passageiro, cão estrito
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

                              Alexandre O'Neill
                              Poema sugerido por: Carolina Silva - 6.º B

domingo, 8 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: QUEM ÉS TU?

QUEM ÉS TU?

Retrato de Walter Rathenau
Edvard Munch (1863-1944)
 

- Tenho uma mota vermelha
com um leitor de CD,
computador, Internet
e uma nova TV.

Uso só roupa de marca,
na melhor loja comprada,
tenho cartão multibanco,
ando na escola privada.

Tenho piscina aquecida,
um cavalo para montar,
e como sempre marisco
no restaurante, ao jantar.

Tenho sete namoradas,
as sete com moradias,
as sete com lindos olhos,
as sete com ricas tias.

Tenho um pai com muitas notas
e mãe cheia de pulseiras,
são de prata os meus talheres,
e de ouro as minhas torneiras.

- Afinal tu não existes,
és só aquilo que tens,
um zero todo coberto
de uma montanha de bens.

                         Luísa Ducla Soares
                         Poema sugerido por: Anita Páscoa - 5.º B

sábado, 7 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: FUNDO DO MAR

FUNDO DO MAR


As «Pirâmides» de Port-Coton
Claude Monet (1840-1926)
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

                Sophia de Mello Breyner Andresen
                Poema sugerido por: Tatiana João - 8.º B

sexta-feira, 6 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: O PASTOR


O PASTOR
Rebanho de ovelhas
Ernest Ludwing Kirchner (1880-1938)


Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho,
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo.

        Eugénio de Andrade
        Poema sugerido por: Rafael Silva - 7.º A

quinta-feira, 5 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: O TEMPO

A persistência da memória
Salvador Dalí (1904-1989)
O TEMPO


Pelas areias da praia
o tempo fui procurar.
Mas onde moras, ó tempo,
que não te consigo achar?

Pelos verdes da floresta
o tempo fui procurar.
Mas onde moras, ó tempo,
que não te consigo achar?

Pelas pedrinhas da rua
o tempo fui procurar.
Mas onde moras, ó tempo,
que não te consigo achar?

Tiquetaque, o coração
é um relógio a bater.
O tempo que não achei
já me fez envelhecer.

                                     Luísa Ducla Soares
                                     Poema sugerido por: Leonardo Silva - 5.º B

quarta-feira, 4 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: LÁGRIMA DE PRETA

 Oswaldo Guayasamín (1919-1999)
LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta  
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume                                                  
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

                           António Gedeão
                           Poema sugerido por: Madalena Duarte e Margarida Correia - 9.º B

 

terça-feira, 3 de março de 2015

UM POEMA POR DIA: O COMETA



A noite estrelada
Van Gogh (1853-1890)
O COMETA
 
Lá vem o cometa
tem a cauda branca
a cabeça preta

Que não se intrometa
na sua rota
nenhum planeta

E que ninguém tente
cortar-lhe o cabelo
ou não fosse de gelo

Nunca noiva alguma
teve um vestido assim
feito de espuma

Lá vai lá vai o cometa
tem a cauda branca
a cabeça preta

Se não o viste passar
daqui a cem anos
ele há de voltar

                Jorge Sousa Braga
                Poema sugerido por: Beatriz Francisco - 6.º B
 

segunda-feira, 2 de março de 2015

MARÇO - MÊS DA POESIA

A Escola Básica Manuel do Nascimento elegeu o mês de março como o mês da poesia e desafiou os seus alunos a lerem um poema por dia.
O nosso blogue aderiu ao slogan "Um poema por dia?! Nem sabes o bem que te faria!" e dá hoje início à publicação diária de um poema.

 
AUTOPSICOGRAFIA
 
Caricatura de Almada Negreiros
 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.
 
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama coração.
   
                                            Fernando Pessoa