sexta-feira, 19 de março de 2021

EU, LEITOR(A), SUGIRO «MAR ME QUER»

 

Já escrevi duas críticas ao livro «Mar Me Quer», do escritor moçambicano Mia Couto. Numa disse que não tinha gostado da obra. Na outra já foi o contrário. Esta terceira crítica vai reforçar a minha opinião, que é positiva, em relação a este livro. Começando pela sua forma. Forma? Sim, forma. A forma como foi escrito, a complexidade de cada frase, as palavras que não conhecemos (algumas até inventadas!), mas com um significado simples por trás, o que torna a escrita bonita, «estranha», mas interessante.

Há algumas palavras-chave importantes para entender a história, digo, há palavras que definem esta obra. Na minha opinião, a palavra que melhor define «Mar Me Quer» é «Mulher». E não por aparecer uma figura feminina na capa do livro, mas porque toda a história do livro gira em torno de uma mulher. E essa mulher chama-se Luarmina.

Há outros aspetos importantes no texto. Palavras que se encontram num par. E é sobre elas que eu agora vou escrever. Duas delas são «Homem» e «Animal», que afinal se ligam na obra, porque várias personagens parecem transformar-se em animal. Isso acontece, por exemplo, quando o pai de Zeca estava num barco com uma mulher, que ama, e ela cai ao mar. Agualberto lança-se à água, mas não consegue salvá-la. Quando regressa à superfície, depois de ter estado muito tempo debaixo de água, os seus olhos pareciam os de um tubarão! Outro exemplo aconteceu com Henriquinha, a antiga esposa de Zeca. Ela dizia que ia à missa todos os domingos, mas Zeca começou a desconfiar e um dia seguiu-a até à Duna Vermelha, onde viu que a sua mulher se estava a despir e a dançar. Furioso, empurrou-a falésia abaixo, sem nunca chegar a encontrar o corpo. Mas ouvia, isso sim, o tempo todo, gritos de gaivota pelo ar …

Depois temos a ligação «Terra/Mar», que podemos associar ao par «Vida/ Morte». Antes de Agualberto desaparecer, foi à sua Igreja, que era uma árvore. Colocou um coral preto no tronco da árvore e outro no chão. Depois, Zeca preparou o barco e seu pai entrou, navegando mar adentro, para não mais voltar. Antes, Agualberto tinha agradecido, em Terra, pela sua vida, mas foi o mar que ele escolheu como destino final, lugar onde ele julgava que tinha morrido (vivido?) a sua amada.

Com Zeca, também não é clara a diferença entre vida e morte. No final do livro, quando ele ouve o mar, vai adormecendo aos pedaços. Muitos leitores pensam que nesta parte ele morre, mas não, Zeca recomeça, isto é um recomeço.

A relação entre «Verdade» e «Mentira» acontece durante todo o livro, pois, o que Zeca vive com Luarmina é uma mentira. Ele acha que não tinha cuidado da amada do seu pai, acha que não tinha cumprido a promessa que lhe tinha feito, mas, afinal, sem saber, tinha cuidado dela o tempo todo. É isso que a Dona Luarmina lhe conta quando percebe que ele vai partir, pois ela própria era essa mulher.

A memória também tem neste livro um papel importante. Na terra de Zeca, não se lê, não se vê televisão, nem se ouve rádio.  Tudo é contado oralmente, de boca em boca. Luarmina pede a Zeca inúmeras vezes para lhe contar histórias, histórias verdadeiras, as suas memórias, mas Zeca nunca refere o seu passado, nunca fala do que se lembra, porque acha que isso não é interessante. Então, inventa. Inventa histórias para Luarmina.

As palavras «Passado», «Presente» e «Futuro» também se ligam, resumindo o tempo de uma forma aparentemente confusa. Há várias passagens em que isso acontece, mas, sem dúvida, a mais importante é quando Agualberto abençoa o filho, Zeca, e diz que ele há de morrer afogado num lençol de pano que vira ondas de água, e isso acaba por acontecer. O passado é recusado por Zeca e por Luarmina, pois magoou-os, mas ele acaba sempre por estar presente, em sonhos, memórias e profecias.

A palavra com que gostaria de terminar é «Sonho». Todo o livro acaba por ser um Sonho. Luarmina tinha o sonho de ter filhos. Zeca imaginava e sonhava as suas histórias para oferecer a Luarmina. O pai de Zeca vivia um sonho. Todo o livro é um sonho.

Em conclusão, eu gostei de «Mar Me Quer». Mas considero que para gostarmos dele não basta uma leitura. São necessárias pelo menos três. E não na mesma altura. Em alturas diferentes, porque assim estamos com disposições diferentes, e isso ajuda a saber se realmente gostámos do livro ou não.

 Mariele Venda, 8.º A, n.º 14.

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